O papel estratégico do cirurgião-dentista na identificação e no manejo das doenças raras

Data publicação: 28/02/2026

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No dia 28 de fevereiro, celebramos o Dia Nacional das Doenças Raras, uma data que nos convida a refletir sobre a realidade de milhões de brasileiros e, especialmente, sobre o impacto que a Odontologia pode ter em suas trajetórias de cuidado. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma doença é considerada rara quando afeta até 65 pessoas a cada 100.000 habitantes. Cerca de 80% das doenças raras decorrem de desordens genéticas, enquanto as demais são causadas por infecções, fatores imunológicos ou ambientais. Embora individualmente raras, o conjunto dessas doenças afeta cerca de 3% a 6% da população mundial (ou aproximadamente 13 milhões de brasileiros). Geralmente são doenças crônicas, progressivas e incapacitantes, muitas vezes manifestando-se na infância.

Estima-se que cerca de 40% dos fenótipos das doenças genéticas apresentem manifestações na região de cabeça e pescoço. Mais do que dados epidemiológicos, esses números representam um chamado clínico claro, que posiciona o cirurgião-dentista de forma estratégica no cuidado integral à saúde das pessoas.

Com frequência, somos os primeiros profissionais a observar sinais e alterações que, à primeira vista, podem parecer isolados, mas que fazem parte de quadros sistêmicos complexos. Nesse contexto, o cirurgião-dentista atua como um elo fundamental na rede de vigilância e cuidado, capaz de iniciar uma investigação que pode mudar o curso da vida de um paciente.

Nossa formação odontológica nos confere um domínio singular da fenotipagem craniofacial e intraoral. Durante a avaliação de rotina, vamos além da identificação de cárie ou doença periodontal, realizando uma análise integrada dos tecidos orofaciais. Observamos a morfologia craniofacial, a dinâmica oclusal e um amplo espectro de alterações dentárias e mucosas, desde defeitos estruturais de esmalte e dentina até distúrbios de número, forma e erupção dentária, além das particularidades dos tecidos moles.

O diferencial da nossa atuação está na capacidade de interpretar a correlação entre esses achados. Reconhecer que determinados traços faciais, associados a padrões específicos de alterações dentárias, compõem um quadro morfológico coerente e sugestivo de uma desordem genética exige um olhar treinado. Essa percepção exige uma postura clínica proativa, baseada na suspeição fundamentada e no encaminhamento qualificado. O cirurgião-dentista com alfabetização genética valoriza uma anamnese detalhada, incluindo a investigação da história familiar, e reconhece a importância da documentação cuidadosa dos achados clínicos e radiográficos. Ao fornecer informações precisas ao especialista, contribuímos para encurtar e direcionar a jornada diagnóstica, atuando como facilitadores em um processo que, para muitos pacientes, é longo e desgastante.

Na prática clínica, alterações na morfologia dentária e craniofacial, como atraso ou ausência de erupção dentária, hipodontia, defeitos de esmalte e padrões específicos de oclusão, especialmente quando associadas a traços faciais característicos, podem levantar a suspeita de doenças raras. O reconhecimento desses sinais não tem caráter diagnóstico isolado, mas reforça o papel do cirurgião-dentista na suspeição clínica e no encaminhamento qualificado para investigação especializada. Ao mesmo tempo, a atuação do cirurgião-dentista se estende ao longo de todo o cuidado dessas pessoas, integrando de forma contínua a equipe multiprofissional. Muitas doenças raras impactam diretamente a saúde bucal, a alimentação, a fala e a qualidade de vida, tornando essencial a participação do dentista no manejo da dor, na prevenção de infecções e na adaptação de estratégias de cuidado bucal, em articulação com médicos, conselheiros geneticistas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e outros profissionais, fortalecendo um cuidado centrado na pessoa e orientado pela equidade. Nesse cenário, o cirurgião-dentista assume um papel ainda mais relevante ao planejar estratégias de prevenção personalizadas, adaptar técnicas de controle de biofilme e propor tratamentos restauradores que considerem possíveis fragilidades dos tecidos dentários e periodontais.


Garantir o acesso a esse cuidado, seja na atenção primária ou em centros de referência, é uma questão de equidade em saúde. Nossa atuação se fortalece quando integrada a equipes multiprofissionais, envolvendo médicos, conselheiros geneticistas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e outros profissionais, todos convergindo para um plano de cuidado centrado no paciente.


Para que esse cenário se torne realidade de forma consistente, é necessário enfrentar um desafio estrutural: a formação profissional. A genética médica e o reconhecimento de fenótipos craniofaciais ainda ocupam um espaço limitado nos currículos de graduação em Odontologia. É fundamental formar cirurgiões-dentistas capazes de identificar padrões sugestivos, compreender conceitos básicos de genética e conhecer os fluxos da rede de atenção à saúde. Essa atualização deve se estender também aos profissionais em atividade, por meio de ações contínuas de educação permanente.

Neste Dia Nacional das Doenças Raras, reforçamos que o cirurgião-dentista é um vigilante estratégico da saúde integral. O consultório odontológico pode ser o ponto de partida para uma investigação que transforma trajetórias de cuidado. Nossa expertise sobre a região craniofacial nos coloca em posição privilegiada para reconhecer sinais precoces e contribuir para um cuidado mais oportuno, humano e acolhedor. No universo das doenças raras, cada detalhe importa, e o cirurgião-dentista está, muitas vezes, no melhor lugar para percebê-lo.




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